Morre aos 99 anos, única piauiense mulher perseguida e presa na Ditadura Militar

Morreu nesta segunda-feira (26) aos 99 anos, a advogada, professora, jornalista e colunista social Iracema dos Santos Rocha


27/10/2026 08:27:38

Morreu nesta segunda-feira (26) aos 99 anos, a advogada, professora, jornalista e colunista social Iracema dos Santos Rocha. Ela foi a única mulher piauiense perseguida e presa durante o regime militar no Brasil, que deixa um legado de coragem e resistência. Iracema também esteve à frente da coluna social “Agenda Nobre” e marcou época na imprensa piauiense. 

O velório acontece na capela do cemitério Jardim da Ressurreição, na zona Sudeste de Teresina. O sepultamento está previsto depois da missa que ocorre no final desta tarde, no mesmo local. 

A Ordem dos Advogados do Brasil, Secção Piauí emitiu uma nota lamentando a morte e destacando seu legado. Confira a nota no final da reportagem.

Em 2015, aos 87 anos, Iracema Santos Rocha foi indenizada pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça.  À época, a advogada recebeu o Cidadeverde.com em sua residência e lembrou dos traumas vividos no período da ditatura sob a acusação de comunismo e subversão. Ela sentiu na pele o peso das humilhações, passou fome, perdeu empregos e amigos e até o direito de se reunir com a família. 

"Eu sempre acreditei que a mulher tem que ter os mesmos direitos dos homens. Fui a favor da Revolução Industrial e desde então fui perseguida e censurada. A primeira vez que passei por isso foi durante um discurso no rádio, ao lado de Petrônio Portela. Cortaram a minha palavra. Dias depois, fui presa e vivi os piores pesadelos", relatou Iracema ao Cidadeverde.com.

Iracema ainda foi presa duas vezes depois e permaneceu sob as algemas da ditadura por três a quatro dias em cada uma delas. Por vezes, chegou a perder a noção de tempo, já que ficava no sempre no escuro. Ela ficou presa por cerca de 30 dias no quartel do 25º BC durante o período de chumbo e sua família foi perseguida.

Durante o regime militar, Iracema Santos perdeu os empregos de professora da Ufpi (Universidade federal do Piauí) e o cargo no Incra. À frente da luta em razão dos direitos da mulher, ela era presidente da Liga Feminina Trabalhista.

Anistiada, advogada presa na ditadura no Piauí desabafa: "minha alma já doeu muito"
"Acho justo, mas essa justeza me dói. Eu não merecia ter sofrido tudo isso. Eu me emociono quando lembro porque foram momentos de humilhação. Eles não chegaram a me agredir fisicamente, mas passei dias sem comer, meus filhos foram perseguidos, zombavam deles. Isso tudo foi muito triste e me deixou bastante traumatizada", relata a advogada.

Nota na íntegra da OAB-PI
A Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Piauí, manifesta profundo pesar pelo falecimento da advogada Iracema dos Santos Rocha da Silva, aos 99 anos, nesta segunda-feira (26/10). 

Além da atuação na advocacia, Iracema construiu uma trajetória de destaque como professora, jornalista e colunista social, tornando-se uma referência na imprensa piauiense por meio da coluna “Agenda Nobre”. 

Sua história também foi marcada pela luta em defesa dos direitos das mulheres e pela resistência à ditadura militar, período em que foi presa e sofreu perseguição política, em 1964. Seu legado permanece como exemplo de coragem, compromisso e defesa das liberdades.

Neste momento de dor e luto, a OAB Piauí solidariza-se com os familiares, amigos e colegas de Iracema dos Santos Rocha da Silva, expressando suas mais sinceras condolências e desejando força e conforto a todos que sofrem com esta perda.

 

 

Fonte: Cidade Verde

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Nilton Ferreira - 05:00 às 06:30